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Aço

Eu trouxe a morte diante de mim, tão perto de ti quanto podia, até o gemer do aço temperado dessa espada fria, a fria lâmina de todas as desditas dos sedentos deste poço que esvazia a água de seu próprio rosto. Eu trouxe a morte; eu vivo a morte como quem devora a última comida cheia de fumaça e ri no topo de uma escada em espirais de veneno (um veneno que devasta) tomado da verde alegoria que enfeita o carro dos mortais que um dia vestiram aquela fantasia. A morte, primeiro antepasto que eu comia a olhar o oceano vasto onde me afogaria é mãe do horror e filha da desgraça. Eu deixo a vela, a vela desse funeral embaixo da janela porque não posso mais e tudo passa. Soprada pelo vento, onde está ela? Onde estarás? Talvez entre os umbrais. Quem sabe esteja na taverna, em que a última cerveja foi servida a Barrabás, enquanto aquela outra, encharcada de vinho, espera e não sabe o que faz. Eu sei a morte, a morte foi meu ninho. Tu só depois de morto a sa...

Razão e sensibilidade

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Os tempos atuais, de vida acelerada, de mensagens por dispositivos móveis, provoca a necessidade de comunicação cada vez mais reta e breve. A escrita precisa então de períodos mais curtos. A inversão de elementos na frase, tão cara a tempos pretéritos (em que soava como qualidade de estilo), dá lugar à predominância da ordem direta, principalmente no jornalismo. Diz a influencer Dad Squarisi em seu Blog:  “Na frente, o mais significativo. Atrás, o secundário. Sujeito + verbo + complemento é a fórmula. Bolsonaro elogiou o filho na entrevista de ontem no Palácio do Planalto. A ideia substantiva — Bolsonaro elogiou o filho — abre o enunciado. É ela que ficará retida na memória. O complemento tem importância secundária. Se algum pormenor se perder, não comprometerá o recado. Compare: Na entrevista de ontem no Palácio do Planalto, Bolsonaro elogiou o filho. A informação mais importante perdeu-se na rabeira da frase. Azar do leitor”. * As diferenças de estilo não se p...

Absinto com fogo: a voz ardente de Caro Emerald

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Grandes intérpretes sempre nos surpreendem nas leituras que fazem de uma bela canção. Então prepare sua dose de absinto com fogo, deixe a luz ambiente na quase escuridão de quem espera o amor ou a morte, e se possível use um desses toca-discos retrôs para ouvir a bela Caro Emerald nestas três interpretações de "A Night Like This" (Uma noite como essa). A versão acústica registrada em "Deleted Scenes from the Cutting Room Floor" parece saída dos porões das casas de carteado da década de 1960: perigosa, romântica, esfumaçada, dançante. Em agosto de 2012, Caro esteve em Budapeste e foi o que ocorreu de melhor no Sziget, um festival de música realizado anualmente, durante uma semana, no qual só comparecem as feras contemporâneas. A versão de "A Night Like This" nesse evento é calorosa, radiante, clara como o sol. Caro está ardente, focada, a testa um tanto franzida pela luz intensa, mas verdadeira, porque a verdade é contagiante e é impossível ficar par...

David Hart – sobre o "Silence River" de Antônio Moura

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O primeiro livro completo de um poeta brasileiro publicado no Reino Unido foi Silence River , do paraense Antônio Moura. Em comentário a essa publicação, David Hart diz que o prefácio de Stefan Tobler o apanhou com seu entusiasmo e prazer de haver realizado esse trabalho, mas que a introdução de David Treece o aborreceu desde a primeira página. "É a diferença entre aquele que trabalha no texto e o acadêmico permanente", afirma. A presença do "acadêmico permanente", que se pretende crítico, mas não consegue deixar de ser prolixo e opaco – e por isso é um balde de água fria no leitor –, é recorrente nestes nossos tempos. Hart não é prolixo nem opaco. Aqui publico, seu comentário no original.  Um brinde ao querido poeta. The back cover of Antônio Moura's Silence River tells me this is the first full-length book by a living Brazilian poet to be published in the UK and that Moura (b.1963) is 'one of Brazil's leading literary figures'. Th...

Instante

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chega-me subitamente a visão em névoa de teu outro movimento de água peixe que é concha magra ostra em que me agasalho como um polvo de quem levassem os braços em ti navego o "não" de todos os espaços enguia azul, réptil gerando um ovo ao redor de todos os planetas diante de ti é que me vejo novo sem as rugas de minha dor aberta e giro como um menino ao redor de girassóis – cometas caindo num oceano bem maior e aqui hei de ficar lagoa seca seco córrego... fio de água vazante aqui te encontrarei lua e sereia à luz dum sol de meia-noite e meia

O vermelho e o negro

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Há um livro de Stephen King, À espera de um milagre , que originou um filme estrelado por Tom Hanks e Michael Clarke Duncan. Esse filme tenta nos sensibilizar para o fato de que o bem pode às vezes ser atingido de morte pelas injustiças, se permitirmos que as injustiças aconteçam , s e deixarmos que tudo fique como está, já que está assim por tanto tempo. Milagres não são mágicas. São, isto sim, a manifestação de uma determinada fé. Para os que creem, essa fé é capaz de agitar os céus, mover montanhas, realizar prodígios. Eu tenho fé em pelo menos um milagre nestes tempos críticos: o de que ainda é possível transformar o mundo – em favor do bem, pela Humanidade. Mas também sei que para transformar o mundo é necessário mudar positivamente o Homem (a espécie humana), o que significa, para cada um de nós, executar a difícil tarefa de transformar-se a si mesmo. É preciso mudar a si mesmo... continuamente, positivamente. E na maior parte das vezes não somos capaz de vencer esse ...

O oposto da inércia

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Há quanto tempo isso está assim?  Um dos elementos formadores da palavra administração traz a ideia de movimento.  Administrar tem a ver com agir , o oposto da inércia,  portanto .  É isso, simplesmente: fazer com que algo, por impulso ou por atrito, vá pra frente.  Mas como movimentar-se pode ser algo que se faça para quaisquer dos lados (ou mesmo para baixo ou para cima), há quem siga... para trás.  Há muito tempo cogito que um dos grandes problemas do país, talvez um dos mais profundos, porque disseminando-se e expandindo-se, em metástase, é a falta de gestão, sobretudo a gestão pública.  Indicadores Algumas coisas mínimas, porém, precisam ser feitas, se se pretende gerir algo.  Uma delas é ter indicadores para medir o que se faz, ter os números de nosso desempenho. Um dos sinais de que gerimos predominantemente mal está no fato de que os nossos administradores (sobretudo os gestores públicos) não medem nada. Sem saber os números...