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O vermelho e o negro

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Há um livro de Stephen King, À espera de um milagre , que originou um filme estrelado por Tom Hanks e Michael Clarke Duncan. Esse filme tenta nos sensibilizar para o fato de que o bem pode às vezes ser atingido de morte pelas injustiças, se permitirmos que as injustiças aconteçam , s e deixarmos que tudo fique como está, já que está assim por tanto tempo. Milagres não são mágicas. São, isto sim, a manifestação de uma determinada fé. Para os que creem, essa fé é capaz de agitar os céus, mover montanhas, realizar prodígios. Eu tenho fé em pelo menos um milagre nestes tempos críticos: o de que ainda é possível transformar o mundo – em favor do bem, pela Humanidade. Mas também sei que para transformar o mundo é necessário mudar positivamente o Homem (a espécie humana), o que significa, para cada um de nós, executar a difícil tarefa de transformar-se a si mesmo. É preciso mudar a si mesmo... continuamente, positivamente. E na maior parte das vezes não somos capaz de vencer esse ...

O oposto da inércia

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Há quanto tempo isso está assim?  Um dos elementos formadores da palavra administração traz a ideia de movimento.  Administrar tem a ver com agir , o oposto da inércia,  portanto .  É isso, simplesmente: fazer com que algo, por impulso ou por atrito, vá pra frente.  Mas como movimentar-se pode ser algo que se faça para quaisquer dos lados (ou mesmo para baixo ou para cima), há quem siga... para trás.  Há muito tempo cogito que um dos grandes problemas do país, talvez um dos mais profundos, porque disseminando-se e expandindo-se, em metástase, é a falta de gestão, sobretudo a gestão pública.  Indicadores Algumas coisas mínimas, porém, precisam ser feitas, se se pretende gerir algo.  Uma delas é ter indicadores para medir o que se faz, ter os números de nosso desempenho. Um dos sinais de que gerimos predominantemente mal está no fato de que os nossos administradores (sobretudo os gestores públicos) não medem nada. Sem saber os números...

Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria... se só te restasse este dia

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A canção apocalíptica de Paulinho Moska traz uma provocação: "O que você faria se só te restasse este dia? Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria... se só te restasse um dia." Se não mudarmos o rumo da história humana no planeta, não nos restará mesmo muito mais tempo.  A pergunta de Moska deixa então de ser uma jogada poética – e passa ao estado de uma verdadeiramente incômoda interrogação existencial. "Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia..." Tenho usado essa música como abertura de algumas de minhas palestras mal chamadas de "motivacionais". Na tela do projetor, uma sucessão de imagens (dramáticas, sim) do que temos sido de insanidade e ignorância nos últimos tempos. Quando a música cessa, fica na tela a pergunta: "O que você faria?" Quem se aventura a responder apresenta muitas vezes depoimentos cuja natureza é doloroso aqui reproduzir (e eu não o faria). Percebemos então que a percepç...
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As quatro estações Poemas concebidos para um espetáculo de música flamenca  Verão A hora é a hora Em que se faz (agora) A mágica candente Dos teus pés de lince Nos passos dessa dança Volumosa e áspera. És um sol que explode E que penetra ardente Uns braços que se expandem Num balé de raios... Vai... A vida é bela Nos teus pés de fogo Laços de vertigem, Neste dia longo (O mais longo da vida), Nos passos dessa dança Feita de suor e flores... É VERÃO? Amores? Primavera Borboleta, é claro, É uma flor que gira Entre flores raras Numa dança breve, Leve como a pluma. Deixa um pouco o laço Ficar só mais um pouco Nesse pouso de ave Sobre mãos suaves Que alcançam a face Da louca bailarina. Mais parece estrela, Essa menina rara Que sorri, brincando, Toda PRIMAVERA! Outono O teu corpo gira Em torno de si mesmo Leve folha a esmo Levada pelo vento. Mais que folha: é pluma De mulher que esfuma A dor dos pensamentos Em círculos de dança. Num ritual flamenco. Pés que se desfazem E ...

Sugestão e música

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Um eBook de Enigma Blues , livro de poemas Para ler, clique aqui >  "Enigma Blues" (eBook gerado no sistema Trakto) Criei um eBook de meu segundo livro com uma nova ferramenta da web. Creio que é uma das maneiras mais eficientes de divulgar poesia (sobretudo essa poesia aí, hermética). A sua primeira edição foi lançada há 27 anos. Seu título era então "Ércia e os Elfos", e sua escrita “automática” marcou profundamente o modo como passei a encarar o ato de escrever.  Minha experiência com o desenho a nankim e sua diluição em água (aguada), para chegar aos tons translúcidos a partir do negro puro e intenso, naqueles idos, já me remetia à tentativa de alcançar uma forma, digamos, surrealista de reconstrução do mundo pela arte. Isso eu transferi para a poesia de minha juventude. Escrevo de maneira bastante distinta hoje, mas ainda gosto dela, ainda me surpreende. Sei que ela é difícil porque pretendia ser muito mais sugestão e música que poema. O livr...

Trecho de "A Carta"

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A noite dos casacos vermelhos "Esperava-me naquele abismo de trevas a Indistinta, a que arrebata bons e maus.  E aguardei que dissesses “faça-se a luz”, mas a luz não se fez. E fiquei sozinho e tive de enfrentá-la. Ela esteve muito próxima... e o cheiro que exalava era o de flores mortas, murchas como ela. Esteve a poucos metros de mim e se ­aproximava cada vez mais. Vi os cabelos ralos e lisos dela, os olhos dela, cujo brilho maior era refletirem um negrume profundo, uma escuridão vasta de tão densa.  E a chamavam Morte . Tive medo da treva infernal que vi orbitar ­naqueles olhos que traziam à tona o fundo do oceano. E pensei: É dessa maneira que ela devora os homens, atravessa a imensidão dos tempos e vence os espaços interplanetários. Fechei os olhos e pedi clemência.  Quando os abri, não a vi mais.  Esfumara-se. Partira? Então acordei: estava à margem dum braço qualquer do pântano. Cheguei àquele lugar distante talvez arrastado pelas águas. Sangr...

A que hoje amo só pode ser aquela que está comigo

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Agora A vida não é linear nem simples. Se alguém disser o contrário, está mentindo, mesmo que não saiba.  Isto é possível? Oh, mas é claro. Estamos todos nós, o tempo todo, achando que a vida segue em linha reta; e caso haja curvas, que elas serão previsíveis e até suaves.  Nada mais falso: a vida é uma explosão. Mas pode ser também um sopro de vento.  É isso o que eu queria dizer e não atino, porque também não inteiramente verdadeiro: a vida pode ser uma coisa e outra. Quase nunca será uma coisa ou outra. No entanto a queremos pão pão, queijo queijo.  Temos a ilusão de que a domesticamos nesse ir e vir a que chamamos cotidiano – ou que a subverteremos completamente advogando para nós o que convencionamos chamar de nossa liberdade . Nenhum ser humano é livre a não ser dentro de si mesmo. Tudo o que está fora é para além de mim , portanto longe demais do eu ser livre . Cogitamos que vida material e conforto nos resumem como potencialmente felizes. E e...