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O oposto da inércia

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Há quanto tempo isso está assim?  Um dos elementos formadores da palavra administração traz a ideia de movimento.  Administrar tem a ver com agir , o oposto da inércia,  portanto .  É isso, simplesmente: fazer com que algo, por impulso ou por atrito, vá pra frente.  Mas como movimentar-se pode ser algo que se faça para quaisquer dos lados (ou mesmo para baixo ou para cima), há quem siga... para trás.  Há muito tempo cogito que um dos grandes problemas do país, talvez um dos mais profundos, porque disseminando-se e expandindo-se, em metástase, é a falta de gestão, sobretudo a gestão pública.  Indicadores Algumas coisas mínimas, porém, precisam ser feitas, se se pretende gerir algo.  Uma delas é ter indicadores para medir o que se faz, ter os números de nosso desempenho. Um dos sinais de que gerimos predominantemente mal está no fato de que os nossos administradores (sobretudo os gestores públicos) não medem nada. Sem saber os números...

Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria... se só te restasse este dia

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A canção apocalíptica de Paulinho Moska traz uma provocação: "O que você faria se só te restasse este dia? Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria... se só te restasse um dia." Se não mudarmos o rumo da história humana no planeta, não nos restará mesmo muito mais tempo.  A pergunta de Moska deixa então de ser uma jogada poética – e passa ao estado de uma verdadeiramente incômoda interrogação existencial. "Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia..." Tenho usado essa música como abertura de algumas de minhas palestras mal chamadas de "motivacionais". Na tela do projetor, uma sucessão de imagens (dramáticas, sim) do que temos sido de insanidade e ignorância nos últimos tempos. Quando a música cessa, fica na tela a pergunta: "O que você faria?" Quem se aventura a responder apresenta muitas vezes depoimentos cuja natureza é doloroso aqui reproduzir (e eu não o faria). Percebemos então que a percepç...
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As quatro estações Poemas concebidos para um espetáculo de música flamenca  Verão A hora é a hora Em que se faz (agora) A mágica candente Dos teus pés de lince Nos passos dessa dança Volumosa e áspera. És um sol que explode E que penetra ardente Uns braços que se expandem Num balé de raios... Vai... A vida é bela Nos teus pés de fogo Laços de vertigem, Neste dia longo (O mais longo da vida), Nos passos dessa dança Feita de suor e flores... É VERÃO? Amores? Primavera Borboleta, é claro, É uma flor que gira Entre flores raras Numa dança breve, Leve como a pluma. Deixa um pouco o laço Ficar só mais um pouco Nesse pouso de ave Sobre mãos suaves Que alcançam a face Da louca bailarina. Mais parece estrela, Essa menina rara Que sorri, brincando, Toda PRIMAVERA! Outono O teu corpo gira Em torno de si mesmo Leve folha a esmo Levada pelo vento. Mais que folha: é pluma De mulher que esfuma A dor dos pensamentos Em círculos de dança. Num ritual flamenco. Pés que se desfazem E ...

Sugestão e música

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Um eBook de Enigma Blues , livro de poemas Para ler, clique aqui >  "Enigma Blues" (eBook gerado no sistema Trakto) Criei um eBook de meu segundo livro com uma nova ferramenta da web. Creio que é uma das maneiras mais eficientes de divulgar poesia (sobretudo essa poesia aí, hermética). A sua primeira edição foi lançada há 27 anos. Seu título era então "Ércia e os Elfos", e sua escrita “automática” marcou profundamente o modo como passei a encarar o ato de escrever.  Minha experiência com o desenho a nankim e sua diluição em água (aguada), para chegar aos tons translúcidos a partir do negro puro e intenso, naqueles idos, já me remetia à tentativa de alcançar uma forma, digamos, surrealista de reconstrução do mundo pela arte. Isso eu transferi para a poesia de minha juventude. Escrevo de maneira bastante distinta hoje, mas ainda gosto dela, ainda me surpreende. Sei que ela é difícil porque pretendia ser muito mais sugestão e música que poema. O livr...

Trecho de "A Carta"

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A noite dos casacos vermelhos "Esperava-me naquele abismo de trevas a Indistinta, a que arrebata bons e maus.  E aguardei que dissesses “faça-se a luz”, mas a luz não se fez. E fiquei sozinho e tive de enfrentá-la. Ela esteve muito próxima... e o cheiro que exalava era o de flores mortas, murchas como ela. Esteve a poucos metros de mim e se ­aproximava cada vez mais. Vi os cabelos ralos e lisos dela, os olhos dela, cujo brilho maior era refletirem um negrume profundo, uma escuridão vasta de tão densa.  E a chamavam Morte . Tive medo da treva infernal que vi orbitar ­naqueles olhos que traziam à tona o fundo do oceano. E pensei: É dessa maneira que ela devora os homens, atravessa a imensidão dos tempos e vence os espaços interplanetários. Fechei os olhos e pedi clemência.  Quando os abri, não a vi mais.  Esfumara-se. Partira? Então acordei: estava à margem dum braço qualquer do pântano. Cheguei àquele lugar distante talvez arrastado pelas águas. Sangr...

A que hoje amo só pode ser aquela que está comigo

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Agora A vida não é linear nem simples. Se alguém disser o contrário, está mentindo, mesmo que não saiba.  Isto é possível? Oh, mas é claro. Estamos todos nós, o tempo todo, achando que a vida segue em linha reta; e caso haja curvas, que elas serão previsíveis e até suaves.  Nada mais falso: a vida é uma explosão. Mas pode ser também um sopro de vento.  É isso o que eu queria dizer e não atino, porque também não inteiramente verdadeiro: a vida pode ser uma coisa e outra. Quase nunca será uma coisa ou outra. No entanto a queremos pão pão, queijo queijo.  Temos a ilusão de que a domesticamos nesse ir e vir a que chamamos cotidiano – ou que a subverteremos completamente advogando para nós o que convencionamos chamar de nossa liberdade . Nenhum ser humano é livre a não ser dentro de si mesmo. Tudo o que está fora é para além de mim , portanto longe demais do eu ser livre . Cogitamos que vida material e conforto nos resumem como potencialmente felizes. E e...

Maior que o corpo

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Iluminação Ele havia consumido metade da vida a lutar por um mundo melhor. E o melhor era que todas as pessoas tivessem teto, leite e pão, a mesa posta, ainda que sem fartura, o calor dos amigos, a caminhada simples pelos arredores entre árvores preservadas, uma boa camisa, um pássaro, um cão.  Parecia pouco, mas suficiente. E a felicidade decorreria de termos sido assim humildes diante das outras espécies da Terra, a aceitar o mínimo; a lutar tão somente pelo necessário; a usufruir apenas o que fosse possível. Ao contrário disso, a humanidade seguiu seu curso a querer em demasia. A salutar ambição cedeu lugar à ganância; o cérebro humano prosseguiu em sua tentativa de ser máquina. Até o coração teve de pesar cada vez menos, com suas canaletas de plástico a bombear chocolate e açúcar para as restantes engrenagens do corpo. Dessecado pelas coisas que via se descortinarem sem sentido, ele pensava que o destino humano talvez fosse o de chegar à condição de sermos uns boneco...