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Trecho de "A Carta"

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A noite dos casacos vermelhos "Esperava-me naquele abismo de trevas a Indistinta, a que arrebata bons e maus.  E aguardei que dissesses “faça-se a luz”, mas a luz não se fez. E fiquei sozinho e tive de enfrentá-la. Ela esteve muito próxima... e o cheiro que exalava era o de flores mortas, murchas como ela. Esteve a poucos metros de mim e se ­aproximava cada vez mais. Vi os cabelos ralos e lisos dela, os olhos dela, cujo brilho maior era refletirem um negrume profundo, uma escuridão vasta de tão densa.  E a chamavam Morte . Tive medo da treva infernal que vi orbitar ­naqueles olhos que traziam à tona o fundo do oceano. E pensei: É dessa maneira que ela devora os homens, atravessa a imensidão dos tempos e vence os espaços interplanetários. Fechei os olhos e pedi clemência.  Quando os abri, não a vi mais.  Esfumara-se. Partira? Então acordei: estava à margem dum braço qualquer do pântano. Cheguei àquele lugar distante talvez arrastado pelas águas. Sangr...

A que hoje amo só pode ser aquela que está comigo

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Agora A vida não é linear nem simples. Se alguém disser o contrário, está mentindo, mesmo que não saiba.  Isto é possível? Oh, mas é claro. Estamos todos nós, o tempo todo, achando que a vida segue em linha reta; e caso haja curvas, que elas serão previsíveis e até suaves.  Nada mais falso: a vida é uma explosão. Mas pode ser também um sopro de vento.  É isso o que eu queria dizer e não atino, porque também não inteiramente verdadeiro: a vida pode ser uma coisa e outra. Quase nunca será uma coisa ou outra. No entanto a queremos pão pão, queijo queijo.  Temos a ilusão de que a domesticamos nesse ir e vir a que chamamos cotidiano – ou que a subverteremos completamente advogando para nós o que convencionamos chamar de nossa liberdade . Nenhum ser humano é livre a não ser dentro de si mesmo. Tudo o que está fora é para além de mim , portanto longe demais do eu ser livre . Cogitamos que vida material e conforto nos resumem como potencialmente felizes. E e...

Maior que o corpo

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Iluminação Ele havia consumido metade da vida a lutar por um mundo melhor. E o melhor era que todas as pessoas tivessem teto, leite e pão, a mesa posta, ainda que sem fartura, o calor dos amigos, a caminhada simples pelos arredores entre árvores preservadas, uma boa camisa, um pássaro, um cão.  Parecia pouco, mas suficiente. E a felicidade decorreria de termos sido assim humildes diante das outras espécies da Terra, a aceitar o mínimo; a lutar tão somente pelo necessário; a usufruir apenas o que fosse possível. Ao contrário disso, a humanidade seguiu seu curso a querer em demasia. A salutar ambição cedeu lugar à ganância; o cérebro humano prosseguiu em sua tentativa de ser máquina. Até o coração teve de pesar cada vez menos, com suas canaletas de plástico a bombear chocolate e açúcar para as restantes engrenagens do corpo. Dessecado pelas coisas que via se descortinarem sem sentido, ele pensava que o destino humano talvez fosse o de chegar à condição de sermos uns boneco...

Sobre a Terra

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Lua sangrenta Marcilla me disse que o amor morre. E Nacillo falou que ela estava certa. Ora, há sentimentos assim que começam como um rastro de fogo na campina. É tão intenso o que sai do chão em labaredas que nos sufoca se permanecemos sem sair do lugar, se o coração fica parado e os gestos não se iniciam no sentido da acolhida. Depois é como se um vento de ressaca nos assaltasse de repente. Sobre o cálido das cinzas que vão aos poucos se formando em toda a extensão do prado, uma brisa perpassa devagar o caminho até a casa onde ficamos, que nos acolheu depois de tantos anos, que deixou ficar sobre nós o seu teto de palha e folha. Os dias hoje são sombrios e a casa respira o pó dos que se foram, como um corpo que inspira de cansaço e dá sinais de que desiste. Tanto eu queria... não que fosse como antes, porque o que se foi é um ido inalterável até as esferas que já nem sabemos. Queria, isto sim, o riso despertado pelo agora em que sobejam as coisas que sofremos; o carinho de aqui...
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Sereia de fogo dos lagos de pedras verdes Imagem: Luiz Braga (PostFace) Eu não estaria assim, se não fosse o fato de ter dormido tarde, o dia amanhecer nublado e o sol não existir quase infantil a estas horas no parapeito das janelas.  Quando isso acontece, espreguiço-me na cama sem esperança e vejo pela janela sem cortinas que as nuvens vagam um silêncio morno por todo o espaço, com seu peso de vapor de chumbo e a agonia dum louco que arrastasse gritos pela casa.  O mundo lá fora, assim, nunca é além do frio/calor que nos percorre por dentro as veias, rio fininho de água e óleo, leite e amoras. E há o desespero de não ter feito tudo quanto durante tantos anos, de espedaçar-se pelo meio do caminho, de ter de ouvir a voz desagradável da insidiosa que se senta ao meu lado e quer o teu mal a todo custo. Passou a existir entre nós essa ponte intransponível que vai do ontem ao vento, do agora ao abismo.  Por isso estamos sós.  Ouvimos que ...

A Base Fênix em Bas Saint-Laurent

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Poeira de estrelas A partir do dia 29 deste mês (terça-feira), por um período de sete dias, a Amazon colocará em promoção o romance "O despertar de Fênix", minha primeira experiência com a ficção científica. Sempre alimentei um grande fascínio pela astronomia e pelos mistérios interplanetários; a imensidão do Cosmos até hoje desvia a minha percepção da estreiteza deste parco mundo humano e seus dilemas e me joga na cara que nada mais somos que poeira de estrelas. "O despertar de Fênix", resultado dessa reflexão, está desde seu lançamento entre os eBooks mais vendidos em sua categoria na Amazon. Se você gosta desse gênero, aproveite essa oportunidade. TRECHO "Em menos de um ano estavam concluídos os laboratórios da Base Fênix em Bas Saint-Laurent. Foi nesse lugar paradisíaco que eu e mais 21 pessoas, homens e mulheres, voluntariamente nos submetemos a um novo processo de congelamento ainda em experiência denominado 'O Despertar de Fênix', ...

Uma canção para Elise

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Pour Elise Entre vasos de flores, barro e panelas; em meio a cortinas sem veludo, carro e janelas... u ma história de amor. Simples assim. Sim, está certo: quase nunca não haverá música de fundo. Na maior parte do tempo, estaremos apenas mudos, a andar daqui para ali porque não há outro jeito: a vida segue, as contas chegam, a idade avança, a noite cai sobre todos os mortos. Mas se você ainda estiver vivo e disposto, haverá dias em que até planta e passarinho aparecem na sacada, crescem papoulas no limo da varanda, o sol grita lá fora e à tarde há o som de chuviscos no telhado. Um caso de amor. Simples, sem fim. Creio nele porque o vivo cotidianamente, quase nunca da melhor forma possível, com a angústia de todos os percalços, golpeado por seus altos e baixos, a esperar que um dia faça sol, que noutro dia chova. Um caso de amor nunca é fácil assim. Sim, há dias em que sem ela é impossível respirar, os instantes como que não passam e um deserto de ninguéns se f...