A Canção de Lawino – de Okot p'Bitek Há duas décadas encontrei entre amontoados de jornal um recorte de poema do inquietante autor africano Okot p'Bitek. E assim, por acaso, a Canção de Lawino foi o meu passaporte de entrada a esse universo incômodo e fascinante que é a literatura feita no continente-berço de nossos antepassados. Desde então tenho recolhido fragmentos (são pedaços de texto na maioria das vezes) da poesia africana, quase sempre dolorosa (como poderia ser de outra maneira?), dura, espiritual, profunda porque viva . É uma literatura difícil de encontrar, literalmente, mas essencial – se quisermos pensar o ser humano à margem dos fru-frus da vida ocidentalizada, consumista, vazia e superficial em que (no mais das vezes) mergulhamos. Okot p’Bitek nasceu em Gulu, a maior cidade acholi de Uganda, em 1931. Ainda muito jovem, começou a escrever. Em 1958, após um torneio de futebol (ele jogava na seleção de seu país),...
Postagens mais visitadas deste blog
A delicadeza do olhar Há treze anos, publicamos pela Letraviva um livro intitulado Quem está escrevendo o futuro? , com 25 textos – de autores como Affonso Romano de Sant'Anna, Frei Beto, Leonardo Boff, Moacyr Scliar (e outros grandes nomes) – e mais ou menos 18 fotografias do genial Sebastião Salgado, para as quais fiz o mesmo número de poemas, a que mal chamei de "legendas poéticas". Fui movido pelas imagens a fazê-los, inquieto com o que via ali na minha frente, na tarefa de editor, com aqueles registros profundamente humanos do artista. Os poemas foram diluídos no capítulo assinado por S. Salgado, Um olhar sobre o século XX , que trouxe também ilustrações de Branco Medeiros. Ontem, revendo um vídeo sobre o projeto Gênesis , desse artista internacional a quem muito admiro, decidi republicar aqui os poemas, com algumas das fotos dele que considero emblemáticas de seu modo de ver o mundo: aquela delicadeza própria de seu nômade olhar, que peço licença para rep...
A graça é ainda mais bela que a beleza E que é a graça? É tudo. É, em primeiro lugar, a inteligência. Que vale a formosura plástica, quando é a companheira da estupidez? E a inteligência não dá apenas às mulheres uma beleza moral: dá-lhes também uma certa beleza física. (Olavo Bilac ) A beleza é o que é. Nada mais inútil que o tentar conceituá-la. O belo é sempre uma inapreensão, um eterno escape, uma viagem ao fundo profundo – e profuso – das impossibilidades humanas. Quanto mais a querem submeter, mais a beleza escapa das mãos que a julgavam submissa. A beleza e o belo apenas existem. Através dos séculos, homens em legiões vêm tentando codificar o belo. Os incautos contam-se aos milhares. Mas já há os que se convenceram definitivamente do sem-fim dessa tarefa, pois não existiu sábia alma ou especial sensibilidade que não tenha tentado conceituá-la – sempre insatisfatoriamente. O belo não cabe nos limites do homem, não se deixa reduzir a um esquema, a um sistema. É fluid...

Comentários
Postar um comentário